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#SessãoTBT: Diogo Canina e os bastidores do X-Games 2009

Em entrevista em primeira pessoa, Diogo revela o que realmente aconteceu por trás de uma das situações mais polêmicas da história do BMX nos X Games.

O ano era 2009 e Diogo Canina chegava à sua segunda participação nos X Games. O que ele não imaginava é que aquela edição entraria para a história por uma das situações mais controversas já vividas no evento

“Minha primeira participação foi em 2008, quando entrei como lista de espera. Acabei ficando em segundo lugar, e me garantiu o convite automático para voltar em 2009.”

Naquele momento, Diogo atravessava uma fase de mudanças. No fim de 2008, havia prestado vestibular e passou o primeiro semestre do ano seguinte conciliando estudos e treinos. Quando chegaram as férias, ele sabia exatamente o que precisava fazer.

“Fui para os Estados Unidos andar de bicicleta em tempo integral, nas melhores pistas do mundo. Passei duas semanas em Woodward East, na Pensilvânia, andando de manhã até a noite. Cheguei aos X Games muito forte, me sentindo bem.”

A competição tinha um formato intenso: vinte atletas disputavam a classificatória, dez avançavam para a final e apenas cinco chegavam à superfinal, televisionada ao vivo para o mundo inteiro, tudo no mesmo dia.

Na noite anterior, ainda no quarto do hotel, Diogo teve uma ideia “Falei pro meu primo Denis que tinha certeza de que dava pra mandar um backflip 360 de transfer e pedi pra ele me lembrar no dia seguinte, porque eu podia acabar esquecendo.” E ele esqueceu mesmo mas foi lembrado pelo Denis segundos antes da sua volta. “Quando ele falou, deu um clique na minha cabeça. Saí correndo, esperei os atletas descerem e mandei o flip 360 de primeira. A galera vibrou e, dali em diante, minha volta simplesmente se encaixou.”

O nível estava tão alto que até os ídolos passaram a observar com atenção. Scotty Cranmer, um dos maiores nomes da história do BMX e amigo próximo de Diogo, começou a repetir a linha que ele havia criado na pista. “Isso acontece em campeonato. Quando alguém abre uma linha boa, os outros vão atrás. Aquilo mostrava o quanto eu estava afiado naquele dia.”

Diogo passou em segundo na classificatória e, na final, ficou em primeiro, garantindo vaga na superfinal com uma volta sólida e confiante. Era ali que começava a confusão que marcaria aquela edição dos X Games. “Na nossa cabeça, todo mundo ia andar de novo. Mas, de repente, aparece no telão meu nome em primeiro lugar com a bandeira do Brasil gigante. O narrador anuncia: ‘Congratulations to Diego Canina, our first place today’.”

O estádio lotado em Los Angeles explodiu. O evento vivia seu auge, até David Beckham estava presente, o sol castigava e o clima era de festa. Denis o levantou nos ombros e Diogo acreditou. “Eu pensei: ‘Acho que é isso’. Joguei o capacete, tirei a camisa e comemorei. Entrei naquele modo de ‘ganhei os X Games’. Só que não durou nem um minuto.” A organização percebeu o erro e a super final ainda precisava acontecer.

Foi constrangedor. Todo mundo tinha comemorado comigo. Mas eu virei a chave na hora. Pedi meu capacete, coloquei de novo e falei: vamos andar.” Mesmo reconhecendo que foi prejudicado por um erro que não era seu, Diogo não transformou o episódio em revolta. “Fui prejudicado? Óbvio que sim. Fui penalizado por um erro que não foi meu. Mas minha atitude não justifica o erro deles e aquilo não podia me destruir. Os verdadeiros problemas da vida são outros.”

Na superfinal, voltou a andar forte e terminou em segundo lugar, apenas um ponto atrás de Scotty Cranmer, conquistando sua segunda medalha de prata consecutiva nos X Games. “Foi uma baita conquista. Aquilo consolidava minha carreira.”

Com o tempo, Diogo percebeu que a polêmica ganhou leituras diferentes fora dos Estados Unidos. A barreira do idioma fez com que o episódio fosse entendido de outra forma no Brasil “Aqui, muita gente não percebeu exatamente o que aconteceu ao vivo. Tudo era em inglês. Aquilo ficou muito mais nos bastidores, entre quem estava lá.”

No Brasil, a discussão seguiu outro caminho. “Quando eu voltei, muita gente vinha falar comigo dizendo que eu deveria ter ficado em primeiro. Mas não por causa da confusão do anúncio. Era pela comparação das minhas voltas com as do Scott.”

Diogo passou a viver dois mundos distintos. Nos Estados Unidos, o episódio ficou marcado pelo erro da organização e pelo caos momentâneo no protocolo da competição. No Brasil, o debate se concentrou no julgamento. “Até hoje eu escuto que aquela última volta do Scott não era pra ter dado a pontuação que deu. Ele mandou o flip double whip de transfer, mas escapou o pé do pedal.”

A diferença mínima no placar alimentou a discussão. Um ponto separou os dois atletas.
“Algo como cento e trinta e um pontos contra cento e trinta. Quando a diferença é tão pequena, o debate é natural. BMX Freestyle é subjetivo.”

Apesar disso, Diogo faz questão de relativizar o resultado e valorizar o momento vivido. “O pódio foi muito massa. Scott, Gary Young e eu somos amigos. Eles me ajudaram muito nos Estados Unidos. Quando eu olho aquela foto hoje, pouco importa a ordem. Foi muito legal ter vivido aquilo.” Mais do que medalhas, o X Games 2009 se tornou um marco emocional e simbólico em sua trajetória. “Foi um dos eventos que mais marcaram minha vida, por uma série de fatores. Boas memórias. Uma fase que passou e passou muito bem.”

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