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BMXPEDIA #2: Caio Rabisco

Na segunda edição do BMXpedia, o protagonista da vez é Caio Rabisco e sua história no BMX começa antes mesmo de ter uma bicicleta própria.

O ano era 2008, e o Parque da Juventude, em São Bernardo do Campo, foi reinaugurado e abriu inscrições para aulas de bike, skate e patins. Caio se inscreveu em tudo. As aulas iam das 14h às 22h, sempre às terças-feiras, com professores que marcaram sua base: Evandro Índio no vert, Rafael Maso no park e Jubão no dirt.

“Isso me ajudou muito na versatilidade de andar em todos os terrenos. Nessa época eu nem tinha bicicleta. Eu ia pro parque e pedia bike emprestada pra todo mundo que chegava.”

O BMX cresceu junto com as responsabilidades que vieram cedo. Entre aulas no Senai e o trabalho como aprendiz de eletricista em uma metalúrgica, Caio ajudava em casa e guardava quase todo o salário com um objetivo: comprar sua primeira bike.

Foram meses de economia até conquistar uma Mutiny Cosmotron. A compra só foi possível graças ao apoio do Pit, da Revolution, que facilitou o pagamento numa época em que cartão ainda nem existia.

Com a bike em mãos, a evolução foi rápida. São Bernardo era ponto de encontro da cena, e Caio passou a treinar ao lado de riders que já eram referência, entre os melhores amadores e profissionais. A rotina era intensa: durante a semana, trabalho e estudo; nos fins de semana, bike o dia inteiro.

Com o nível subindo, os campeonatos passaram a fazer parte da rotina. Caio competia em tudo que aparecia: vert, park, dirt. E ele tinha uma meta: fazer uma final do Jump Festival

“BMX freestyle. O que tinha, eu estava presente.”

Nessa fase, veio o primeiro apoio para competir. Evandro Índio, seu professor no início, ajudava com as passagens para os campeonatos. 

“Sou grato a ele até hoje.”

Mesmo sem vitórias imediatas, Caio fazia finais, ganhava confiança e transformava cada competição em combustível para treinar mais.

2012 foi o divisor de águas. Ainda competindo como amador, Caio recebeu uma ligação inesperada do Paulo Charaba e Doguete, que estavam no Rio de Janeiro para a Mega Rampa. Um atleta gringo não poderia competir e perguntaram se ele teria coragem de estar no Rio no dia seguinte. Ele aceitou na hora.
Competiu ao lado de ídolos como Morgan Wade, Chad Kagy e Kevin Robinson. A partir dai, decidiu que aquela seria sua vida.

“Depois disso eu coloquei na cabeça que faria daquilo a minha vida. Que ia viver igual eles. Viajando e competindo.”

Pouco tempo depois, veio o último Jump Festival no Ginásio do Ibirapuera. Além de competir, Caio participou da montagem da pista, trabalhando lado a lado com nomes da cena. Entre mais de cem inscritos na amador, venceu seu primeiro campeonato.

“Esse troféu até hoje fica centralizado na estante.”

Em 2013, Caio viveu um dos anos mais marcantes da sua carreira. Disputou sete campeonatos amadores no Brasil, venceu seis e terminou em segundo em apenas um, consolidando seu nome na cena.
No mesmo período, fez a primeira viagem internacional, rumo a Greenville, na Carolina do Norte, onde ficou na casa de Daniel Dhers. Teve contato direto com lugares icônicos do BMX mundial, como a Animal House e a The Unit 2, experiências que ampliaram sua visão do esporte.
O choque cultural veio logo de cara: entrou em um Burger King e saiu sem conseguir comer por não falar inglês. Isso virou motivação para estudar ainda mais o idioma.
No fim do ano, seguiu para a Argentina para disputar seu primeiro campeonato profissional, em Rosário, e terminou na quinta colocação.
Paralelamente a tudo isso, nascia o Cajuv – ainda de forma simples, com apenas uma caixa de espuma e um gate móvel – o embrião do que mais tarde se tornaria o CT.

O primeiro título profissional no Brasil veio em Itajaí, com vitória logo na estreia. No mesmo ano, Caio fez sua primeira temporada de treinos nos Estados Unidos, passando por Woodward, road trips e até uma visita à casa de Matt Hoffman. Também venceu o primeiro Arena Banks, fechou patrocínio com a MOB Bike e entrou oficialmente para o time da Dream, onde segue até hoje.
Mas o caminho não foi em linha reta. Lesões graves interromperam o ritmo: primeiro o ligamento, depois o menisco. Vieram a cirurgia, meses longe da bike, a fisioterapia diária e um silêncio forçado que testou muito mais a mente do que o corpo.

Enquanto Caio se recuperava, algo importante também tomava forma fora das competições. A pista da Radial foi doada, o Cajuv começou a se transformar em um bike park e, pouco a pouco, deu origem a um verdadeiro centro de treinamento.

Com o BMX entrando no programa olímpico, uma nova fase começou em 2017. Entender regulamentos, sistemas de pontuação e documentos passou a ser tão importante quanto andar de bike. Caio foi um dos atletas selecionados para integrar a primeira seleção brasileira, marcando um novo capítulo na sua carreira.

“O entendimento dos documentos tem a mesma relevância que andar de bike. Se você não tiver alguém que faça isso por você, seja essa pessoa para os outros.”

Esse período coincidiu com um dos momentos mais intensos de viagens da sua trajetória. Entre etapas do BSS no Brasil e o Vans Pro Cup, Caio passou por Espanha, México e Estados Unidos e também um período de transformação fora da pista, com o início do relacionamento com Natália.

Mais uma lesão no joelho e tornozelo exigiu cirurgia. O Cajuv evoluiu e se transformou oficialmente no CT BMX Park, com apoio da comunidade e da secretaria de esportes.
2019 foi um ano quase inteiro de recuperação. Ainda assim, conseguiu competir no continental nos Estados Unidos e no mundial na China.

Durante a pandemia, quando tudo parou, algo novo nasceu. Junto com Cauan Madona, Caio começou a dar aulas gratuitas para crianças. O que era uma iniciativa simples virou um projeto sólido. Assim nasceu o Geração Freestyle.

“Foi muito especial. E não para de crescer.”

Mais do que formar atletas, o projeto forma pessoas e mantém viva a base do BMX.

Em 2021, competiu apenas no continental do Peru, enquanto o projeto social já atendia mais de 20 crianças.

Em 2022, foi para o FISE Montpellier e, da mesma forma que fazia no BSS, se apresentou para a equipe de montagem. Conseguiu trabalho na desmontagem do evento e em outros campeonatos europeus, o que permitiu permanecer no continente competindo e se mantendo financeiramente.

Também participou da montagem do Campeonato Mundial em Abu Dhabi, já valendo pontos para Paris 2024.

Em 2023, com o sistema classificatório definido, Caio estruturou o ano de forma estratégica, focado em eventos que ajudassem o Brasil a garantir vagas olímpicas. Esteve presente em todas as Copas do Mundo, campeonatos continentais e provas C1.

O trabalho deu resultado. O Brasil conquistou duas vagas no OQS, com Caio Rabisco e Bala selecionados para representar o Brasil.

2024 marcou o melhor ano da carreira de Caio. Vieram os melhores resultados em Copas do Mundo, o OQS finalizado na 18ª colocação do ranking e uma ida a Paris paga do próprio bolso “Fui para Paris pagando do bolso. Foi o melhor dinheiro que já gastei. Experiência inexplicável.”

Fora das pistas, foi um ano de transformação pessoal, com a entrega da vida a Jesus Cristo e o batismo. E, para fechar com chave de ouro, conquistou seu primeiro título brasileiro.

Depois do ciclo olímpico, novas portas se abriram. Caio foi convidado para auxiliar o treinamento de uma província chinesa, passando meses fora do Brasil, compartilhando conhecimento e aprendendo uma nova cultura.

“Estou aprendendo chinês agora.”

O BMX segue levando Caio cada vez mais longe.

A trajetória de Caio Rabisco é marcada por persistência e entrega total ao BMX. Entre lesões, conquistas, viagens e projetos sociais, ele construiu uma carreira sólida dentro e fora das pistas.

Como ele mesmo resume:

O tempo é o seu melhor amigo. Só chega na linha de chegada quem não desiste.

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