Sexta-feira, Março 6, 2026
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BMXpedia #1: Mikeila Pelayes

Nossa primeira matéria do BMXpedia é sobre alguém que vive o BMX intensamente: Mikeila Pelayes.

Quem vê as fotos, as matérias, a cobertura dos eventos e o Prêmio Drop BMX talvez não imagine que existe uma história de fronteiras cruzadas, de perdas e de muita dedicação por trás.

Conhecida como “o mano da Drop”, Mika nasceu em Buenos Aires e está no Brasil há 10 anos, mas o BMX entrou na vida dela muito antes disso.

Quando tudo começou

O primeiro contato de Mika com o BMX foi por influência dos irmãos. Pelo ano de 2005, Mathias apareceu em casa com uma BMX, e a irmã mais nova, que já fotografava tudo o que via, virou automaticamente a fotógrafa oficial dos rolês.

“Uma amiga minha me emprestava uma câmera e eu ficava fotografando paisagens, água, pássaros… sei lá, era muito viagem minhas fotos. Eu tinha uns 13 anos.
O dia que meu irmão chegou com sua Haro Backtrail em casa, meus olhos brilharam, mas era difícil ele emprestar, era meio miserável com sua bike kkkkk mas a namorada dele comprou uma só pra acompanhar e me emprestava pra ir andar com eles.”

A paixão ficou séria no dia em que eles foram com uns amigos pegar a bike do irmão Juan Manuel em outra cidade.

“Pegamos trem atrás de trem, pedalamos pelo centro pulando guias, tomamos Coca-Cola na resenha e voltamos só de noite. Coisas simples, mas aquele dia mexeu comigo. Dividir isso com meus irmãos deixou tudo ainda melhor.”

A primeira bicicleta da Mika veio no ano seguinte, em 2006, como presente de 15 anos de Mathias.

Enquanto crescia no rolê portenho, Mika já ouvia falar sobre o Brasil como um paraíso do BMX.

“Na época em Buenos Aires só tinha duas pistas de madeira, e eram pagas. Então a gente andava mais na rua. As vezes dividíamos sessões com Laureano Vallejos, Julio Corpa, Kiko Blasco, Loquillo… vários deles já vinham pro Brasil e falavam das pistas públicas.
Rezava a lenda que ‘em cada esquina tinha uma pista’. Era sonho vir pro Brasil. Além disso, também cresci escutando do Diogo Canina, claro, maior referência para vários e pro meu irmão Mathias também. Nem acredito que agora vejo o Diogo frequentemente.”

A chance de fotografar a cena brasileira veio em 2009, no Ghetto Jam, em Buenos Aires, com uma cybershot emprestada.

“Foi um dos primeiros eventos que fui fotografar… Nesse evento estava o André Delgado e o Eduardo Boa, então eles foram os primeiros brasa que eu fotografei… e esse evento foi muito memorável por que essas fotos o Julio Corpa, que era organizador do evento, me pediu as fotos para uma revista.”

Esse momento serviu de gatilho para o Mathias incentivá-la a se dedicar à fotografia, mas a falta de recursos para uma câmera profissional a fez depender de empréstimos por um bom tempo. 

“Alguns anos antes de o Mathias aparecer com a bike, meu pai faleceu. Aquilo virou nossa vida de cabeça pra baixo. Minha mãe e meus irmãos seguraram tudo… e uma câmera estava totalmente fora de qualquer possibilidade.”

Em 2013, surgiu a oportunidade de participar do Superfly, evento feminino organizado por Flávia Santos na pista de São Bernardo do Campo- SP e seria a primeira viagem internacional da Mika. Na época, ela trabalhava fotografando motocross e campanhas políticas, o que permitiu comprar sua primeira câmera profissional. Mas quando a viagem apareceu de um dia pro outro, ela vendeu a câmera para conseguir pagar a passagem para o Brasil.

Burrada? Talvez. Mas não me arrependo. Foi muito massa fazer essa trip com as meninas. Foi a primeira vez que eu via transições gigantes como o Tribanks. Eu via aquilo como um vert!”

O efeito foi instantâneo. De volta à Argentina, Mika estava mais motivada do que nunca. Para sorte dela, um mês depois, inauguraram o Pacha Park (Costanera), que virou sua segunda casa: street, bowl, mini com spine, tudo no mesmo lugar.
As trips com Camila Harambour se tornaram rotina e marcaram uma fase intensa de evolução.

Amor e fronteiras: quando a vida cruzou com Cauan Madona

Dois anos depois, em um campeonato em Posadas – Misiones, Mika conheceu Cauan Madona. Dias antes da viagem, sua bike caiu da caminhonete, foi atropelada e ela precisou pedir, mesmo sem conhecer ele, que levasse algumas peças do Brasil.

“No dia que cheguei em Misiones, desci da van, vi ele na pista… e cumprimentei todo mundo, menos ele, de tanta vergonha que eu tinha. Mas incrivelmente ele também ficou com vergonha, dois bestas hahaha.”

No dia seguinte, Madona seguia sempre num canto. Mika o chamou para ir junto com a galera tomar café, e foi ali que a aproximação começou de verdade.
Depois do evento, Madona mudou o rumo da própria trip e passou um mês em Buenos Aires. Mika também veio algumas vezes para São Paulo, até que ficou impossível manter as viagens. A decisão, então, foi tomada: Mika se mudaria para o Brasil.
Os primeiros meses foram duros: idioma, clima, cultura, os morros, saudade da família e das amizades. 

“Madona trabalhava de chapa de caminhão e eu fazia ensaios, fotos de gestante, casamentos… e quando não tinha trampo de audiovisual, fazia faxinas. Foi puxado.”

A perda que mudou tudo e o nascimento da Drop BMX

Seis meses depois da mudança, veio o golpe mais duro: Mathias sofreu um acidente de moto e faleceu. Mika não pôde voltar para Argentina, estava irregular no Brasil.

“A última conversa que tivemos foi uns dias antes do acidente, ele me contando que tinha comprado uma bike, que não via a hora de vir me visitar pra andarmos juntos e que estava com saudades.
Nessa época a bike me salvou. Eu joguei toda a tristeza pro rolê. Eu estava no automático e tudo o que eu fazia era por ele.”

Foi nesse período que surgiu o embrião do que mais tarde viraria a Drop BMX.
O nome original era B4 Visual, homenagem à marca de camisetas criada por Mathias, que sempre tentou convencê-la a ter sua própria página.

Em 2017, Mika voltou a trabalhar com BMX, colaborando com a Dream BMX, a primeira empresa que confiou nela mesmo sem ela falar português direito. Ali, assumiu o Instagram por alguns anos e criou a identidade visual da DRB Bikes.
Mas a virada definitiva veio em 2019, quando conheceu o Rodrigo “Kabeça” Lima.

“Ele sempre dizia que era eu que tinha que fazer um site de BMX. Toda vez que a gente se encontrava, ele perguntava quando eu ia fazer o site, me dava dicas e também me dava uns puxão de orelha, e meio que isso me deu um gatilho.
Depois da minha primeira eurotrip com o Madona, tudo fez sentido. Percebi que a B4 Visual precisava evoluir. E assim nasceu a Drop BMX.”

O “mano da Drop” e o impacto de uma mulher na mídia do BMX

Por anos, Mika trabalhou na Drop BMX quase como sombra, produzindo, registrando, sem necessidade de aparecer.
Mas com o Prêmio Drop BMX acontecendo, não havia mais como se esconder. Ela precisou assumir a frente.

“Até uns anos atrás, quase todo mundo achava que eu era homem. Recebia mensagem me chamando de ‘mano’ ‘paizão’, me pedindo foto, me parabenizando, mas não julgo por que realmente eu nunca me dei os créditos de nada. Ninguém ia imaginar que uma mulher estava por trás de uma página de bmx”

Além de tudo, uma mulher argentina liderando um site de BMX brasileiro, algo que às vezes, ela admite, causa resistência. Mas Mika nunca entendeu o BMX como fronteira e para ela, o BMX não tem espaço para rivalidade.

Eu não consigo enxergar o BMX como futebol. Eu entendo que as Olimpíadas tragam isso à flor da pele, mas eu só enxergo amigos.
Na Olimpíada você vê venezuelano treinando chinês, inglês treinando americano…eles estão no ápice das performances do BMX atualmente, e ninguém fala nada.
Eu me criei com o BMX sendo família. Eu cheguei ao bmx por causa dos meus irmãos, e pra mim sempre foi isso: união e família. É normal ter ambição, querer vencer, buscar evolução, mas a rivalidade por país eu deixo pro futebol.
Quando o Maligno ganhou a medalha de ouro, muita gente veio em peso tirar sarro e perguntar se aquilo mudava algo pra mim. E eu respondia a mesma coisa pra todos: ‘Eu moro no brasil e você também, muda algo para você?’. Claro que eu fiquei feliz por ele, não é de hoje que o conheço. Mas é a mesma alegria que eu teria por tantas outras pessoas que admiro, e que nem argentinas ou brasileiras são.
Mas acho que por causa das tretas do futebol a vida inteira que tentam jogar essa lógica em cima de mim. Mas isso me dói por que eu sei o quanto eu me entrego pela cena, independente do lugar”

Prêmio Drop BMX

Para fechar a história da Mika e da Drop BMX, é impossível não falar do projeto que virou símbolo dentro da cena: o Prêmio Drop BMX. Criado em 2021, ainda saindo da pandemia, a primeira edição foi totalmente online e custeada por Mika e com ajuda do Cauan Madona, no esforço puro de quem acredita na própria cena.
Desde então, o prêmio se tornou um marco no BMX brasileiro. E, para Mika, o propósito sempre foi muito claro:

“Eu sempre enxerguei como o Brasil é rico em talentos. Daí veio a necessidade de criar o Prêmio Drop. Mas ele não foi feito pra desmerecer ninguém. Não ser indicado ou não ganhar não quer dizer que você vale menos, anda menos ou que sua caminhada não importa. É só um recorte do ano. A vida continua. Bike na frente sempre.”

Ela também faz questão de lembrar que o formato segue uma tradição já consolidada no BMX e no skate:

“O Nora Cup sempre teve cinco indicados. O skate nacional funciona assim também. Aqui, no primeiro ano do prêmio, o street teve 25 indicados, isso nunca existiu em lugar nenhum. Este ano são dez e ainda é muito, mas realmente fica cada vez mais difícil.
Muitas das vezes quem não é indicado ou não ganha, acaba levando pro coração. O prêmio não é pra desanimar ninguém, muito menos pra criar ranço ou discórdia.”

Para Mika, o verdadeiro sentido do prêmio está no impacto que ele gera:

Eu já vi rider usar a indicação ou o troféu pra conseguir patrocínio, apoio da prefeitura, ter visibilidade local e é sobre isso. Sobre abrir portas.”

E falando em portas abertas, Mika faz questão de reconhecer quem abriu as portas para realizar o sonho da edição presencial:

“Sou muito grata ao César Skate por abrir as portas do Arena Radical. Escolhi esse lugar porque meu primeiro evento depois que me mudei pro Brasil foi lá, num campeonato feito pelo Drac. Eu peguei quarto lugar e ainda levei umas tiradinhas dele por fazer feeble smith com ‘jeitinho brasileiro’ hahaha. Esse evento no ‘cancioneiro’ foi muito legal.”

A essência da Drop BMX carrega o coração de uma família que respira bicicleta, e de um irmão que sempre acreditou na irmã.

“Tudo o que eu faço é com a motivação que meu irmão sempre me deu. Cada evento, cada conteúdo, cada matéria… é pensando nele e no orgulho que ele teria.
Ele acreditava que isso daria certo. Eu só continuo mostrando que ele não estava errado.”

Hoje, Mika é uma das principais referências da mídia do BMX no Brasil, mostrando que paixão verdadeira transforma dor em legado e ultrapassa qualquer barreira.

Se hoje a cena tem mais histórias registradas, momentos eternizados e riders reconhecidos em um prêmio que virou marco, muito disso nasce das mãos e da visão do “mano da Drop”.

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Silvana Gasperoto sobre Bem-vindos ao site da Drop BMX!